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22 de fevereiro de 2019

Mãos da História

A arte fascinante das mulheres da renda, dos bordados e do artesanato que enriquece não só a cultura sergipana, como também se tornou uma vitrine da história brasileira para o mundo.



A criatividade é movida pela sensibilidade da alma. Quem é criativo tem a habilidade especial de enxergar o mundo de um jeito diferente. E, para mulheres como Maria José, Izabel Góis e Maria da Conceição, que estimam cada toque, cada textura, cada traço minuciosamente explorado na costura, a criatividade se tornou o combustível de transformação de suas vidas, que resgata a autonomia ancestral do empreendedorismo feminino, conquistado em uma era pré-capitalista, e o prazer de viver.

Essa arte é um dom, fruto de traços característicos e de elementos típicos da cultura local. É através das técnicas passadas de outras gerações que essas mulheres se capacitam a desenvolver novos processos produtivos. Na trajetória delas, a arte feita pelas suas próprias mãos é um referencial rico de suas tradições, e cada história exerce uma influência singular em seu estilo de vida, o qual gera também um impacto significativo na economia brasileira.

Diante do papel econômico e cultural que o artesanato desempenha em Sergipe, a antropóloga e docente do Programa de Pós-Graduação em Culturas Populares da UFS, Rosana Eduardo da Silva, afirma que o artesanato constitui-se como importante mecanismo de empreendedorismo, inclusão social, sociabilidade e melhoria da autoestima de diversas mulheres. 

“Isso porque, por meio de um saber-fazer, muitas artesãs transformam a sua realidade utilizando-se de habilidades manuais como mecanismo de empregabilidade e manutenção econômica. Neste sentido, os ofícios tradicionais passaram a constituir-se como importante fonte de visibilidade, protagonismo e geração de renda feminina”, reitera Rosana Eduardo.

Hoje, com o crescimento da economia criativa nos últimos 20 anos, já é possível estimar que, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 10 milhões de brasileiros vivem e sobrevivem do artesanato. Os números impressionam, e são um retrato da atividade econômica que já se faz presente em 78,6% dos municípios brasileiros e movimenta mais de R$50 bilhões por ano com a sua comercialização.

No coração de Aracaju, o Museu do Artesanato, localizado no Centro de Turismo e Arte na Praça Olímpio Campos, abriga um acervo repleto de referências históricas e culturais. Na exposição é possível encontrar peças marcantes da região como a renda irlandesa e instrumentos como o bilro, além de diferentes tipos de artefatos. 

O prédio, tombado pelo patrimônio histórico do Estado, ainda conta com um espaço no Centro de Comercialização, onde reúne lojas de artesãs sergipanas como a de Maria José na sala 2 e a de Izabel Góis na sala 7. É lá que elas desempenham cotidianamente as suas atividades laborais, com suas criações e peças bordadas a partir do rendendê, ponto de cruz e rechilieu, e ainda se dividem entre o prazer de trabalhar costurando dia e noite, lutando pela sobrevivência nesse mercado para gerar o sustento da casa e, além de tudo, tendo que conciliar com as atividades domésticas.

Realidade essa que se contrapõe na vida de Maria da Conceição. Conhecida por ser buraqueira com muito orgulho por ter nascido na cidade de Porto da Folha, Maria começou a fazer ponto de cruz e rechilieu ainda muito nova por influência da matriarca da família, sua avó, mas abandonou a técnica para trabalhar como professora. Embora nunca tenha se interessado em vender suas peças, foi no auge de sua da vida que a senhora aprendeu e descobriu na renda de bilro a sua maior fonte de diversão.

No entanto, a população sergipana ainda segue inerte diante da riqueza de sua cultura. A arte que corre nas veias do nosso estado vem lutando dia após dia para sobreviver em meio às crises, desigualdades sociais e econômicas, assim como a pobreza, a falta de serviços básicos e a exclusão social que se fazem presentes nessa realidade. E esse é apenas um pequeno recorte do cenário em que as mãos embora esquecidas, precisam ser lembradas.

“As artesãs possuem significativa importância para Sergipe, uma vez que são mantenedoras de tradições que evidenciam traços culturais, elementos estéticos, simbólicos, sociais e étnicos. São patrimônios vivos que dão continuidade a um legado cultural que precisa ser valorizado, reconhecido e divulgado, inclusive para garantir a sustentabilidade financeira de suas produtoras”, conclui a antropóloga Rosana Eduardo, que ainda considera esse um segmento social economicamente vulnerável.

À frente das bagagens particulares que embarcam na história de Isabel, das duas Marias e de tantos outros artesãos e artesãs, o que os têm unido em lamento é a carência da divulgação de seus trabalhos. Para as três senhoras, esse fator é essencial para garantir que a cultura da renda, do bordado e do artesanato não morra. Para que através deles o estado continue possuindo um símbolo de identificação, podendo ser valorizado tanto pelos turistas quanto pela população local.


MARIA José
64 anos, Nossa Senhora das Dores (SE)


Mais conhecida como Lela, a ganhadora do Prêmio Mulher de Negócios do Sebrae de 2015 já participou de várias feiras no Brasil e na Argentina por causa do amor que sente pelo seu trabalho. O crochê e os bordados com rendendê, ponto de cruz e rechilieu estampam a sua loja na sala 2, e foi especialmente no rendendê que Lela encontrou a sua verdadeira paixão e motivação.


“É a nossa tradição, a maioria da minha família trabalha com o bordado. E até hoje eu também trabalho nesse ramo. Aos 8 anos eu comecei a bordar por influência da minha família, e isso já vem de outras gerações. Com essa idade eu estava aprendendo a bordar com a minha mãe e minha avó. 

Nesse tempo a minha mãe era costureira. Ela ainda não era bordadeira, mas aí com os filhos que foram muitos, graças à Deus, começou a fazer o rendendê e a trabalhar com isso. E foi justamente o rendendê que trouxe ela para Aracaju. Era ele que trazia o sustento para a nossa casa, e nessa época morávamos eu e meus 11 irmãos. Toda a vida foi assim, mas só quando ela veio pra cá foi que a vida melhorou.

Um pouco antes disso, eu casei e fui morar em São Paulo. Depois voltei e até hoje estou aqui. A minha mãe precisava de uma pessoa pra ficar na loja. Como a loja já vai fazer 40 anos aqui, eu vim pra ajudar a ela trabalhando e tomando conta. Eu amo trabalhar, amo fazer isso o dia todo se deixar. E inclusive também levo o trabalho pra casa todos os dias.

O que eu mais gosto de fazer é o rendendê. Faço crochê e ponto de cruz - este eu não gosto muito por causa das cores, mas nada se compara ao rendendê que é o trabalho típico de Sergipe. É a minha paixão. Ele é feito a partir de um tecido que se chama etamine. Com essa base eu vou contando todos os fios, faço o trabalho e depois corto, desfio e teço.

É um trabalho manual que é muito conhecido. Quando o turista chega aqui em Aracaju, eles querem conhecer o trabalho típico do estado. Infelizmente por falta de divulgação e incentivo nós estamos passando por dificuldades. Ele não tem o valor que era pra ter, justamente pela falta da divulgação.

O dia que eu ganhei o Prêmio Mulher de Negócios foi uma alegria muito grande em recebê-lo, porque tinha muita gente e eu que fui a selecionada pela minha história. Também me chamaram pra participar de uma revista e uma feira no Salão do Artesanato em São Paulo agora no final do ano. Parece que as pessoas lá fora reconhecem mais o nosso valor do que as daqui. Já rodei o Brasil e até fui parar na Argentina, pelo menos nesse ponto eu tive a oportunidade de divulgar e apresentar o meu bordado para outras pessoas, outra cultura.”



IZABEL Góis
75 anos, Aracaju (SE)




Com 38 anos no mercado, a espirituosa artesã se dedica à arte como quem respira. Em sua loja “Somente Arte”, na sala 7, o que não falta é criatividade. Na sua zona particular é possível encontrar desde peças de rendendê, ponto de cruz, rechilieu com rendas renascença, labirinto, crivo e souvenir, até objetos de centro de mesa reaproveitados e personalizados pela própria. Para Izabel, o que sustenta o seu ânimo de viver vem de sua maior terapia: a pintura.



“O que eu mais gosto de fazer é o bordado, depois vem a pintura. Também faço outros trabalhos manuais como bonequinhas. A gente quer deixar e não pode, é como uma cachaça, como um vício. Há vezes que eu quero deixar, mas daqui a pouco olha eu aqui de novo fazendo.

Eu sempre gostei de pintura, de trabalhos manuais. Fazia e vendia. Quando aqui foi inaugurado, me chamaram e aqui estou. Isso já fazem uns 38 anos. Eu trabalho o dia inteiro, tanto que a minha mesa é assim (cheia de coisa). Até fazia em casa também, mas agora estou só descansando.

Eu tinha uns 17 anos quando comecei a fazer, isso porque via muito a minha mãe, avó e avô fazendo. Nessa época eu ficava procurando onde vender, quem comprasse. A minha mãe tinha isso como um hobbie, ela gostava. E aí quando eu aprendi mesmo peguei o gosto também e fui me apaixonando cada vez mais.

É com esse trabalho que o Nordeste pode aparecer, se apresentar. Porque, olha não sei não, mas o Nordeste é muito forte nessa parte de costura, de artesanato. Eu ando por aí tudo, nas feiras e tal. Ele poderia ser mais valorizado. Antes a gente tinha mais ajuda, mais divulgação, mas agora não. 

O que nos salva é a Renda Irlandesa. Ela hoje é o nosso patrimônio cultural. Nem na Irlanda se fabrica mais, só a gente. Pra você ver, a gente cuidou da renda irlandesa, eles não cuidaram e perderam. E depois dela vem o rendendê e os outros bordados. Mas deveríamos ser mais divulgado. Por causa da falta de divulgação a gente está morrendo. É terrível. Nós nos unimos para que isso não morra, que apareça. Aqui dentro nós temos um condomínio, a gente fez, pra isso aqui não se acabar.

A gente faz tudo aqui. As vezes eu faço até boneca, porque aquelas buchinhas de antigamente são muito procuradas e ninguém quer fazer mais. Mas a gente faz. Porque também é a nossa cultura. Nós vivemos daqui. Sobrevivemos daqui.

E assim, são poucas aqui dentro que são artesãs, mas é atravessador. Tem lojas aqui que é uma boutique, elas não criam a peça. E eu gosto, porque é criando a peça que eu posso vender e falar com propriedade daquilo que criei. Mas aqui dentro está misturado o importado. Um dia apareceu um senhor turista que se revoltou, disse que isso tira o nosso incentivo e enquanto uma pessoa faz um trabalho desse, que é todo na mão, como vai competir com um importado? Que talvez seja mais caro que essa passadeira. É revoltante. Já houve muita vigilância, mas agora relaxaram.

Não criam, não fazem. Tem gente aqui que não enfia uma agulha. Tudo bem, ótimo, está sobrevivendo, mas vamos respeitar, né, quem faz, quem cria. E tira o incentivo de quem borda, porque não vou dizer que eu bordo isso tudo, não dou tempo, mas eu só tenho coisas feita na mão e de gente daqui de Aracaju, do interior. Eu não vou em uma loja comprar e botar aqui dentro, não, isso é falta de respeito com o seu vizinho e com o seu próximo. É falta de ética. 

Uma bordadeira que sobrevive disso, do interior, vai competir com uma peça que vem de fora? Não dá. Quer dizer, aquela coitada, como ela vai sobreviver? É terrível, mas nem tudo a gente pode dar jeito né.

Aqui tem duas garotas que levam jeito. Já vem pequenininha do interior, porque a gente mesmo já vem de pequena. As vezes herda do pai, da mãe, da vó. Elas vêm aqui nas férias desde o natal do ano passado, e a menina faz questão de aprender e eu ensino. Ela estava aprendendo fuxico, e aqui comigo ensinando uma bolsinha ela disse para avó: ‘Minha vó, eu preciso de tecido.’ Têm barato, de 3 a 4 reais o metro. Aí ela chegou no outro dia com uma sacola cheia de fuxicos prontos. Aí eu disse: ‘Ô, bonito o tecido. Você comprou?’, ela disse: ‘Não, a minha avó não quis comprar. Peguei o short e cortei todinho.’ Quer dizer, é um dom que já tem nela batendo de criar. Como ela não tinha, arranjou pra fazer. Cortou o short e fez uma bolsa. 

As mães, as avós, precisavam pegar os netos e ensinar. Tirar os telefones, os tablets, o computador das mãos deles. Esses pontos eu aprendi na escola. Essa mesma menina também quer aprender ponto de cruz e a boneca de garrafa. Ela viu que eu fiz e quer fazer também agora nas férias. E eu faço com todo prazer pra não morrer. Para isso não morrer. Porque se não vai acabar morrendo a nossa arte. E o nosso Brasil sem isso não tem história. Não tem pra contar, nem pra mostrar. E se não cuidar, como é que vai ser?”



MARIA da Conceição
81 anos, Porto da Folha (SE)


'Buraqueira legítima', Maria começou a confeccionar rendas ainda muito nova por influência da mãe e de outras mulheres da família. A professora já aposentada descobriu na renda de bilro um pretexto para divertir e ocupar a sua mente. 



“No início eu fazia muito ponto de cruz. Aí depois eu comecei a trabalhar e deixei o ponto de cruz. Logo em seguida comecei o rechilieu na máquina e por último, na idade, veio a renda porque as vistas não dá e aí eu continuo até o dia que eu não puder mais. No dia que eu puder faço, compro linha e dou às pessoas de presente.

Eu não tenho como vender por lá (Porto da Folha) e aqui também é difícil, que eu não venho aqui. Aí eu dou pra uma amiguinha uma peça, para outras amiguinhas e assim vai. Quando uma vem eu digo ‘traga o novelo’, porque é 13 reais, né, e dá pra fazer uma peça de 10 metros.

Essa minha habilidade vem de criança. Naquela época eu devia ter uns 9 anos, morava na casa da minha avó no interior e estudava lá. Minha avó dizia ‘vai fazer um negócio pra não sair na rua.’ Aí aprendi pra não ficar saindo e andando na rua o dia todo.

Ela ficava me ensinando e eu achava bonitinho. Na hora que eu não estava na escola aquilo me entretia. Aí vinham as amiguinhas e assim eu continuei. Nem tinha muito valor naquele tempo. Mas depois deixei, porque eu trabalhei como funcionária pública. Depois de maior eu fiz curso de professora, naquela época era muito difícil. Mas hoje eu sou professora aposentada.

Pra gente com a velhice fazer renda de bilro é mais fácil. Fica sentadinha e na hora que quiser descansar, descansa. Não é uma coisa obrigatória, eu não preciso disso (para sustento). Me ajuda muito, porque eu não posso sair. Faço minhas coisinhas por aqui, sentadinha, vou fazer a minha rendinha para o tempo passar. Aí uma pessoa gosta ou uma vizinha precisa e encomenda, eu dou com prazer.

Eu faço só pra me divertir, pra passar o tempo, pra distrair. Se não for a minha almofada, o que eu vou fazer? Vou me deitar, me sentir inútil. E lá eu moro sozinha, só dou um passo se alguém me segurar e ir comigo. Aí eu demoro, não faço o dia todo pra não me fardar, se não as minhas pernas e o meus pés começam a inchar por causa da diabetes. E enquanto eu puder vou fazendo.

Muita gente sobrevive e vive da renda, da aplicação. Tem esses bicos, uns mais estreitos e outros mais largos, que a gente faz com linha cinza. Dá pra aplicar em lençol, toalha de banho, de mesa. Só que isso aqui é uma coisa que pra mim não vale nada (financeiramente). 

Porque é uma coisa que ela só é bonita assim esticadinha, quando molha encriquia, embola. Pra passar é um Deus nos acuda. Muita gente não gosta de usar porque depois de lavada, se não deixar bem engomadinha, ela não é a mesma. É muito trabalhoso, hoje em dia ninguém quer comprar pra ter trabalho. Por isso que ela não vende muito assim não.”

Nosso chico não é lixo

A ressignificação da menstruação, e de seus respectivos ciclos, contempla alternativas reutilizáveis e ecológicas para mulheres que buscam conhecer sua natureza cíclica, repensando o seu consumo e suprimindo o tabu do mênstruo sujo e descartável.



O tabu em torno da menstruação não é nada novo. Ele sobreveio de forma banalizada por volta dos 1.445 anos antes de Cristo, quando a mulher em seu período menstrual era considerada impura aos olhos da sociedade. Já nesse tempo, conforme as concepções do judaísmo, a mulher menstruada era colocada em condição de imperfeição e não podia estar em contato com outras pessoas, sob o jugo de transmitir e contaminá-las com a impureza. De modo que era forçada a entrar em um intervalo de reclusão e impedida de sair de casa, a lei também a proibia de estar diante de Deus enquanto ainda tinha fluxo.

Sendo esse um pretexto de vergonha entre as mulheres da época, o sangue então encoberto era conferido como impuro e imundo. Hoje, com o uso dos absorventes descartáveis, esse cenário não é muito diferente. Continuamos tratando a nossa menstruação como lixo, como algo que não nos pertence - ou pelo menos não deveria pertencer. E daí vai se fundindo uma ditadura do sangue sujo, nojento e descartável, como sugere o próprio nome. 

Diante desse despotismo, a estudante de direito Luiza Allan Aragão, também influenciadora e consultora vegana do “Não como só alface”, descobriu a menstruação como parte importantíssima para seu autoconhecimento, pertencimento e feminilidade. Para ela, foi somente se livrando desses absorventes que se tornou capaz de abraçar tudo isso completamente. 

“Na época que eu utilizava absorventes descartáveis, zero saudades, tinha vergonha em mostrar o pacotinho no carrinho do supermercado ou até mesmo na escola a caminho do banheiro, além de nunca falar a palavra menstruação na frente de homens. Um bom tempo da minha vida não gostava de todo esse ciclo. Achava péssimo todo o transtorno, abafado, lixo, alergia, dinheiro, noturno, com aba, sem aba, diário.”, relembra Luiza.



Repense seu consumo

De acordo com um levantamento feito pela Fleurity, é possível sentir os impactos desastrosos que essa cultura do consumo descartável tem provocado no meio-ambiente. E principalmente por não serem biodegradáveis, esses absorventes demoram cerca de 100 anos para se decompor na natureza.

Essa decomposição tardia contribui para o aumento gradativo dos problemas causados pelo lixo mundial e de seus danos significativos, dilatando os entulhos dispostos nos lixões ou aterros sanitários e provocando a contaminação do solo com os aditivos químicos utilizados na sua fabricação.

A pesquisa apresenta que uma mulher com ciclo menstrual de quatro dias gasta, em média, 24 pacotes de absorventes em um ano. Em 40 anos (média da vida fértil da mulher) são usados 960 embalagens, o que equivale a quase 8 mil absorventes - são 192 quilos por mulher. 

Segundo o censo do IBGE, o Brasil conta com uma estimativa de quase 105 milhões de mulheres. Esse dado representa pouco mais da metade da população brasileira, somando um percentual de 51%. E se considerarmos que, apenas no nosso país, possam existir hoje cerca de 62 milhões de mulheres em idade menstrual, chegamos ao número alarmante de mais de 12.000 toneladas de absorventes jogados fora todo mês. Isso não é assustador?

Outro índice também preocupante é marcado pela quantidade de lixo do oceano da Ocean Conservancy, o qual contém aplicadores de tampão entre a sua lista de lixo encontrado no oceano. Não só eles levam anos para serem decompostos, como são muitas vezes ingeridos acidentalmente por animais marinhos e aves, causando danos irreparáveis ​​ao ecossistema oceânico já vulnerável.

Essa problemática começou a tomar forma com o processo de industrialização e pela concentração da população nas grandes cidades. O que até o século passado era disposto como combustível para o consumo sustentável, a sociedade moderna rompeu com os ciclos naturais da natureza desde que deixou de transformar o seu lixo em adubo para a agricultura.



Novo mundo sustentável

Na tentativa de pagar essa dívida com o meio-ambiente, novas alternativas ecológicas começaram a reaparecer. O qual surge na crescente conscientização ambiental que propõe resgatar os antigos costumes orgânicos de uma época pré-capitalista, quando os impactos ecossistêmicos desses itens higiênicos não chegavam nem perto de serem proporcionais aos dias de hoje.

Os absorventes de pano, por exemplo, são 100% feitos com tecido e se assemelham ao modelo convencional, com abas e botões que ficam presos na roupa íntima. Conhecido pelas vovós como “paninho”, ele funciona como um envelope impermeavel que absorve o fluxo menstrual, podendo ser lavado e reutilizado. Além de ter uma vida útil de 7 anos, demora, em média, apenas um ano para se decompor - podendo ser enterrado no jardim de casa.


Outra alternativa mais popular é o coletor menstrual. Apesar de existirem mulheres que não tiveram uma boa experiência e nem conseguiram se adaptar com o uso, o coletor pode ser muito prático para quem quer passar o dia despreocupada e é aconselhável especialmente para aquelas que têm sangramento excessivo e que, às vezes, chegam a usar até dois absorventes simultâneos para conter.

Feito 100% a partir do silicone medicinal, ele pode ser usado por até 12 horas sem vazamentos e sem necessidade de troca, proporcionando a sensação de estar sempre seca. O coletor dura cerca de 10 anos, sendo sugerida uma substituição a cada 3 anos a depender da marca, e o sangue coletado ainda pode ser utilizado como adubo para as plantas.


Essa opção sustentável é a que mais tem sido recomendada pela ginecologista Caroline Marques para suas pacientes. Embora ainda seja uma dificuldade convencê-las a se tocarem e a perceberem que não é feio colocar o coletor, a doutora oferece orientação e disponibiliza o consultório para a primeira inserção caso haja dificuldade.

“Acredito também que a mulher hoje não é mais aquela mulher que passava o dia em casa. Então precisamos ser mais práticas, porque a maioria sai pela manhã e só volta para casa a noite. Eu estimulo não só o uso de coletor, como também a amenorreia para as pacientes que querem ser donas do seu ciclo e menstruar quando e se quiserem. E elas têm esse direito. Você não precisa menstruar todo mês. A mulher atualmente é dona do seu corpo.”, reitera Caroline.

A mais revolucionária dessas opções talvez seja a calcinha absorvente que surgiu há pouco tempo no Brasil. A Pantys foi a primeira marca brasileira que idealizou esse conceito, desenvolvendo e lançando diferentes modelos com tecnologia de ponta, sendo muito bem posicionada pelas críticas. 

Além de ser uma peça vegana e reutilizável, a calcinha possui um tecido antimicrobiano com bloqueador de odores e alta absorção que promete proporcionar mais liberdade de conforto e movimento “naqueles dias”. Ela pode ser usada até 6 à 10 horas em fluxos intensos e o dia inteiro em fluxos mais leves, apresentando uma vida útil de até 2 anos.


Ambas são possibilidades acessíveis que podem facilmente substituir os absorventes comuns e ainda ajudam a economizar a longo prazo, poupando o bolso, o meio-ambiente e o nosso bem-estar. Os preços podem variar dentro de uma média de R$15 a R$20, de R$30 a R$80 e de R$75 a R$95, respectivamente.



Ame sua natureza cíclica

Mais do que adquirir um produto, é reintegrar a nova visão a partir de uma mudança de comportamento, anulando os velhos hábitos e costumes, para quebrar as barreiras e preconceitos que ainda perduram. E isso só irá partir de quem, incomodada com a cultura descartável, procura sua libertação.

Em comentário no blog da Pantys, Joana Figueiroa, usuária assídua da calcinha absorvente, enxerga esse agente transformador como fonte essencial para o empoderamento feminino. “Em casa também tenho usado absorventes de pano e, o que pode ser considerado um ‘voltar no tempo’, para mim tem significado liberdade, autoconhecimento e poder de escolha. Mas acredito que ainda há uma resistência naquelas que desconhecem esse ressignificar da menstruação: tenho a impressão de que apenas uma parcela das mulheres são tocadas pela questão (e pela calcinha revolucionária).”, escreve.

À frente dessa conscientização, um resistente movimento feminino tem se levantado para empoderar e ressignificar a menstruação. Uma vez que estamos diante de um ensinamento ancestral muito valioso, a própria definição da palavra “ciclo”, empregado para definir cada período menstrual, vem de sua origem primitiva no termo grego “kýklos”, que significa uma série de fenômenos cíclicos, ou melhor, uma série de fenômenos que se renovam de forma constante.

Diante dessa lição, a menstruação passa a ser visualizada como um processo de renovação e percebida como um fenômeno natural importante do nosso corpo. E a partir dessa mentalidade inteligente, se torna simples enxergar esse momento de forma muito mais amigável para contemplarmos juntas a beleza de ser mulher. 

A principal chave está em aprender a nos amar exatamente como somos, aceitando e valorizando nossos ciclos naturais, nos contemplando de forma muito mais profunda. É através desse exercício que, certamente, um novo mundo sustentável virá nos abraçar.

11 de abril de 2018

A deficiência invisível


Era uma manhã única. Aquela experiência fatídica de março de 2017 ia mudar a minha vida por completo. Na sala do consultório já conseguia ouvir lá de fora o que antes eu jamais ouvi. O canto dos pássaros e a buzina do carro ao longe. O fonoaudiólogo entrou em uma cabine, fechou a porta e perguntou pra mim (que estava sentada de costas do lado de fora): “Carolina, está me ouvindo?”. Eu, emocionada, disse que estava. Tudo era muito novo pra quem antes parecia viver em uma bolha. E eu me dei conta da vida colorida que perdi quando somente “via” tudo em preto e branco. Do perigo que me cercava e eu não percebia. Como quem não enxergava e finalmente foi presenteado com novos olhos. Novos sentidos. Daquele dia em diante, usando dois pequenos aparelhinhos que encaixam lá dentro como se fossem fones de ouvido, finalmente fui capaz de admitir para mim mesma: eu sou deficiente auditiva!

Daí passei a procurar mais sobre os meus direitos como deficiente na internet. Coisa que habitualmente eu não fazia. Um dia resolvi entrar em um estabelecimento e me vi em direção a uma fila preferencial pela primeira vez na vida. Analisei a placa que sinaliza a fila especial, muito mal sinalizada inclusive, incontáveis vezes. Na dúvida se eu realmente posso e devo estar ali. De repente me deparei com olhares. Eles me olhavam torto desde a cabeça aos pés como se estivessem a procurar algum defeito que me justificasse a estar ali. Não o encontram. “Você sabe que aqui é fila preferencial, né?”, me indaga uma senhora me cutucando com cara feia e em tom de ironia querendo me intimidar. Eu, constrangida por ainda ter que me explicar, solto um apenas “Sei!”. 

E aí me dou conta que a surdez é de fato a deficiência invisível. Aquela que quem tem muitas vezes não consegue explicar, aquela que de primeira ninguém é capaz de notar e parece ser bobagem aos olhos de quem vê. Requer da gente um grande esforço para conviver com pessoas de mente tão pequena. De antipatia tão grande.

Quem olha aquelas gravuras de gestante, idoso e cadeirante acredita que a fila especial é destinada apenas para estes. Eu mesma já me senti até culpada algumas vezes. Pelos olhares, sussurros e cara feia. Mas será que só pelo fato de eu usar dois aparelhos auditivos para tentar amenizar o meu grau de surdez bilateral automaticamente me torno uma pessoa que ouve 100%? Será que eu não tenho mais dificuldades nesse processo de adaptação? E se as minhas pilhas acabarem, eu serei mais ou menos deficiente por isso?

Acontece que estamos inclinados a achar que para estar em uma fila preferencial é preciso ter uma deficiência considerada digna de pena. Mas pena porquê? Preferência não é você dar o seu lugar pra outra pessoa passar na sua frente ou furar a fila. Preferência é constituída por lei como demonstração de respeito e consideração aos que muito são desconsiderados, na tentativa de nivelar o tratamento e de superar a desigualdade.

Então sim, essa expressão utilizada em tantos estabelecimentos é sinônimo de acessibilidade e é a própria materialização disso. É para todos os deficientes que requer uma atenção especial do caixa, que precisa ser atendido com mais compreensão e respeito. Sim, é para todos os deficientes. E não apenas para aqueles que intitulamos como dignos de pena. É para surdos, mudos, cadeirantes, cegos, idosos e gestantes. E sim, para deficientes auditivos também.

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Oi, você! 
Gostou da minha crônica? Se quiser saber mais sobre como 
eu descobri a minha deficiência auditiva assista a seguir 
o vídeo do meu testemunho que eu publiquei no canal.
Deixe o seu like, comente o que achou e se inscreva lá.
Um xêro e até a próxima!


1 de outubro de 2017

Os desafios me ensinaram a crescer.


Uma vez eu ouvi Deus falar comigo. Ele me deu um propósito que nem eu mesmo sabia que tinha. Foi no comecinho de fevereiro de 2016 e eu havia recém completando os meus 18 anos. Por ter atingido a maioridade, eu precisava já estar ingressada na universidade nesse mesmo ano para continuar recebendo o meu benefício.

Quando perdi o meu pai eu não sabia quem eu era e nem quem eu queria ser. Eu estava perdida, me sentia limitada. Passei a minha infância e adolescência acreditando que eu não podia fazer as coisas e, por isso, eu desistia tão fácil. Na escola eu ficava em recuperação o tempo todo. As minhas notas de janeiro à novembro me davam vergonha. No meu nono ano eu fiquei pendente em praticamente todas as matérias do ano inteiro e sabe o que eu fiz? Escolhi reprovar. Por livre e espontânea vontade, simples assim. Eu achava que se eu não havia conseguido antes também não conseguiria dar a volta por cima nos últimos segundos decisivos do ano.

E foi por esse fato que precisei fazer supletivo no final do meu segundo ano do ensino médio. Eu, como costumava ser, estava tão atrasada. Como eu conseguiria fazer uma única prova com todas as matérias e assuntos resumidos dos meus últimos dois anos de ensino médio, fora o conteúdo do terceiro ano no qual eu não havia estudado? Como eu conseguiria dar conta de algo assim se em toda a minha vida até aquele dia não fui capaz de passar direto na escola um anosinho sequer?

Então, com toda a minha energia negativa e completamente desestimulada, com todo aquele sentimento de não poder fazer isso, eu fui lá e fiz. Mas eu estava com tanto medo. No dia anterior Deus havia me dito que eu não precisava me preocupar pois eu iria passar. A única coisa que Ele me pediu foi para que eu desse tudo de mim, o meu melhor nos estudos. Mas eu falhei com Ele.

O bom de confiar em Deus é saber que a glória da segunda casa sempre é melhor que a primeira, não é? Depois da frustração eu me acheguei até Ele e pedi perdão. Lá fui eu, com a minha segunda, grande e decisiva chance estudar tudo de novo para fazer a prova de exatas. Dessa vez mais confiante, mas ainda um pouco receosa por causa do resultado da primeira. Cheguei no local da prova e faltava cerca de meia hora pra começar. Eu estava sozinha, mas não me sentia assim por dentro. A minha mãe havia acabado de dizer que tudo ia ficar bem. O Espírito Santo estava comigo.

Foi quando uma pergunta começou a martelar a minha cabeça.
Por que eu precisei passar por toda essas dores, perdas e frustrações, Pai? São tantas dificuldades, tantas limitações. Tantos pensamentos que me faz achar que sou menos do que o Senhor me diz que eu sou. Por que eu sou assim e não como os outros? Tudo parece tão mais fácil para eles.
Eis que me deparo com sua resposta brotando em meu coração. 
Eu não te criei para ser como os outros. Eu te criei para ser uma mulher cujo sobrenome é SUPERAÇÃO. Esse será o seu testemunho.
Essas palavras ressoavam dentro de mim e chegaram aos meus ouvidos como uma chama ardente da certeza de que Deus estava me chamando para um tempo novo. O tempo de sair do lugar que limitava a minha visão. Eu entrei na sala completamente extasiada e transbordando dEle. Eu não estava mais perdida. Eu sabia quem eu era. Repeti isso comigo mesma e no final, é claro, eu me surpreendi. Tudo realmente deu certo e eu tenho me esforçado a dar tudo de mim até hoje.

Eu aprendi a voar quando vi Ele em mim. E depois que vi, a vida se abriu pra mim.

Os desafios me ensinaram a crescer e ainda me ensinam um pouquinho mais a cada dia. E quando a gente acerta o passo é tão simples, é tão fácil. Então, se tem uma coisa que eu descobri nessa caminhada é que sim, nEle nós podemos tudo porque Ele é simplesmente o Dono de tudo.

E aí, quem é você? Eu posso não te conhecer, mas tenho certeza de que você foi gerado para fazer a diferença nesse mundo. Não seja mais um ao léu e sem propósito entre as 7 bilhões de pessoas. Descubra qual é a sua identidade e busque ser a melhor pessoa que você jamais imaginaria ser um dia. Esta é uma geração chave que prepara o caminho para que Jesus volte.
24 de setembro de 2017

Um amor pelo Fotojornalismo.


Oi, gente.
Como muitos de vocês já sabem, eu comecei a cursar Comunicação Social: Jornalismo há quase dois anos e, desde então, eu tenho mergulhado em um mundo de conhecimento completamente novo e diferente para mim. Foram muitas surpresas, alegrias e decepções também, nunca me imaginei estudando nessa área e confesso que no início eu subestimei bastante esse curso por achar que não era pra mim.

Hoje, já no quarto período, a minha cabeça mudou muito. Acho que a tendência boa costuma ser essa, não é? O jornalismo me abriu para o mundo com olhos que eu não tinha antes, ele me abriu para uma visão ilimitada, e isso aconteceu especialmente nessa minha disciplina de Fotojornalismo no qual estou tendo um contato mais íntimo agora.

Eu me redescobri. Não achei que fosse gostar mais de fotografia como tenho gostado agora. De fato, essa sempre foi uma das minhas grandes paixões. Mas agora é através das minhas lentes e da minha maneira de enxergar o mundo que desejo compartilhar registros reais a partir do meu olhar. E é exatamente isso que eu quero começar a compartilhar aqui no Blog. Anseio por capturar histórias que expressam e possuam algo para contar apenas com uma imagem. O espaço para fotojornalismo será permanente aqui no Desconstruindo Carolina e eu estarei dividindo as minhas experiências e o que eu tenho aprendido com vocês também.

As fotos a seguir foram realizadas no modo manual com uma câmera profissional Nikon D3100 no Mercado do Augusto Franco em uma atividade prática com a minha turma. Todos os direitos reservados dos registros aqui contidos estão sob a minha autoria (© Carolina Morais) e só podem ser reproduzidos com o meu consentimento.

Então chega de papo e vamos conferi-las? As imagens vão falar por si só. Clique em Mais informações aqui embaixo para ver o post completo e deixem um comentário sobre o que vocês acharam. 💜