início contato desconstruindo devocionais
11 de abril de 2018

A deficiência invisível


Era uma manhã única. Aquela experiência fatídica de março de 2017 ia mudar a minha vida por completo. Na sala do consultório já conseguia ouvir lá de fora o que antes eu jamais ouvi. O canto dos pássaros e a buzina do carro ao longe. O fonoaudiólogo entrou em uma cabine, fechou a porta e perguntou pra mim (que estava sentada de costas do lado de fora): “Carolina, está me ouvindo?”. Eu, emocionada, disse que estava. Tudo era muito novo pra quem antes parecia viver em uma bolha. E eu me dei conta da vida colorida que perdi quando somente “via” tudo em preto e branco. Do perigo que me cercava e eu não percebia. Como quem não enxergava e finalmente foi presenteado com novos olhos. Novos sentidos. Daquele dia em diante, usando dois pequenos aparelhinhos que encaixam lá dentro como se fossem fones de ouvido, finalmente fui capaz de admitir para mim mesma: eu sou deficiente auditiva!

Daí passei a procurar mais sobre os meus direitos como deficiente na internet. Coisa que habitualmente eu não fazia. Um dia resolvi entrar em um estabelecimento e me vi em direção a uma fila preferencial pela primeira vez na vida. Analisei a placa que sinaliza a fila especial, muito mal sinalizada inclusive, incontáveis vezes. Na dúvida se eu realmente posso e devo estar ali. De repente me deparei com olhares. Eles me olhavam torto desde a cabeça aos pés como se estivessem a procurar algum defeito que me justificasse a estar ali. Não o encontram. “Você sabe que aqui é fila preferencial, né?”, me indaga uma senhora me cutucando com cara feia e em tom de ironia querendo me intimidar. Eu, constrangida por ainda ter que me explicar, solto um apenas “Sei!”. 

E aí me dou conta que a surdez é de fato a deficiência invisível. Aquela que quem tem muitas vezes não consegue explicar, aquela que de primeira ninguém é capaz de notar e parece ser bobagem aos olhos de quem vê. Requer da gente um grande esforço para conviver com pessoas de mente tão pequena. De antipatia tão grande.

Quem olha aquelas gravuras de gestante, idoso e cadeirante acredita que a fila especial é destinada apenas para estes. Eu mesma já me senti até culpada algumas vezes. Pelos olhares, sussurros e cara feia. Mas será que só pelo fato de eu usar dois aparelhos auditivos para tentar amenizar o meu grau de surdez bilateral automaticamente me torno uma pessoa que ouve 100%? Será que eu não tenho mais dificuldades nesse processo de adaptação? E se as minhas pilhas acabarem, eu serei mais ou menos deficiente por isso?

Acontece que estamos inclinados a achar que para estar em uma fila preferencial é preciso ter uma deficiência considerada digna de pena. Mas pena porquê? Preferência não é você dar o seu lugar pra outra pessoa passar na sua frente ou furar a fila. Preferência é constituída por lei como demonstração de respeito e consideração aos que muito são desconsiderados, na tentativa de nivelar o tratamento e de superar a desigualdade.

Então sim, essa expressão utilizada em tantos estabelecimentos é sinônimo de acessibilidade e é a própria materialização disso. É para todos os deficientes que requer uma atenção especial do caixa, que precisa ser atendido com mais compreensão e respeito. Sim, é para todos os deficientes. E não apenas para aqueles que intitulamos como dignos de pena. É para surdos, mudos, cadeirantes, cegos, idosos e gestantes. E sim, para deficientes auditivos também.

⇟⇟⇟⇟⇟⇟

Oi, você! 
Gostou da minha crônica? Se quiser saber mais sobre como 
eu descobri a minha deficiência auditiva assista a seguir 
o vídeo do meu testemunho que eu publiquei no canal.
Deixe o seu like, comente o que achou e se inscreva lá.
Um xêro e até a próxima!


Nenhum comentário:

Postar um comentário