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11 de junho de 2018

Roupa nova não é luxo

“Não vou usar esse tênis de novo porque está com cara de usado”. “Me sinto melhor comigo mesma quando uso roupas novas”. “Odeio repetir roupa”. “Me preocupo muito mais em ter quantidade com o menor preço do que com a qualidade da minha compra”. Aposto que você já pensou ou se sentiu assim em algum momento da sua vida, não é? No Slow Fashion, as pessoas já estão aderindo o consumo consciente como estilo de vida. Entendem que para se viver com leveza é de suma importância excluir o exagero da essência, e não só do guarda-roupa. 
Temos como exemplo o casamento real de Megan Markle e Princípe Harry que foi cheio de quebras de protocolo. E entre os convidados isso também não se fez diferente. Dentre todos os looks desenhados por grandes estilistas de renome, o que virou notícia foi um vestido em particular. Aliás, o vestido não foi a notícia, a repetição dele sim. Nos anos de 2015 e 2016, a Duquesa de Cambridge, Kate Middleton, vestiu o mesmo modelo Alexander McQueen em dois eventos importantes da família real: no batizado da sua filha Charlotte e no aniversário da Rainha Elizabeth. 
No casamento real, Kate não fez cerimônia e repetiu mais uma vez o vestido que já tinha usado nessas duas outras ocasiões. O fato da recorrência foi tão viral nos veículos de comunicação que fez muitos admiradores perceberem que até uma princesa pode ser “gente como a gente”. O modelo clássico, de mangas compridas e cor clara, foi combinado com acessórios diferentes, como o chapéu e o scarpins nude, que arremataram o look de Kate Middleton em todos os três eventos.

Kate Middleton recicla o mesmo vestido Alexander McQueen em três ocasiões da família real. (Foto: Divulgação)

O que parece ser um verdadeiro drama para nós reles mortais e o pesadelo para os fashionistas de plantão, a atriz Meryl Streep já provou que não vê problema em repetir roupas e que ser chique é uma questão de atitude. Recentemente, uma imagem que mostra a atriz usando um vestido preto de renda se espalhou rapidamente quando os internautas associaram o mesmo look da foto com o usado por Meryl mais nova ainda no ano de 1979.

Recentemente, Meryl Streep apareceu vestindo o mesmo vestido preto de renda que usou em 1979. (Foto: Divulgação)

Os holofotes também caíram em cima da atriz Rita Moreno, de 86 anos, quando ela repetiu o mesmo vestido que usou há 56 anos atrás em sua premiação no Oscar. A ganhadora da categoria de Melhor Atriz Coadjuvante pela sua atuação no filme Amor, Sublime Amor, prestou a sua homenagem ao customizar o vestido antigo, usando-o novamente no Oscar de 2018. 
A peça tão amada pela atriz estava em seu armário por muitos anos e ela sempre dava uma olhadinha de vez em quando. O vestido se tornou muito mais do que apenas um vestido para Moreno, ele carrega a grande lembrança de uma noite incrível e de uma época que não tinha nem tapete vermelho, e isso lhe trouxe um apego emocional e icônico pela peça.

Em 2018, Rita Moreno customizou o mesmo vestido que usou ao vencer a premiação do Oscar de 1962. (Foto: Divulgação)

A moda, além de ser uma ferramenta de empoderamento e uma extensão do estilo e da personalidade de alguém, também está pautada no posicionamento das pessoas mediante as relações interpessoais, principalmente quando se trata no modo de se vestir. “O tema reciclagem de looks e produções é bastante recorrente na área da moda. Foi a partir de um novo posicionamento dos usuários em relação à consciência social e a preocupação do homem com os rumos do planeta que isso refletiu diretamente no consumo da moda. Essa conduta ajudou bastante a forma de repensar as roupas.”, afirma a coordenadora de Design de Moda da Universidade Tiradentes, Bruna Marques.
Voltando um pouco no tempo em que Luís XI era o Rei da França, o significado de luxo era outro. Na antropologia da moda e consumo ele se entende completamente diferente do que temos como definição nos dias de hoje. Toda vez que alguém percebia que algo era luxuoso isso era um indício de que aquela peça era muito duradoura e muito boa, que poderia servir de gerações para gerações. Embora cara e pouco acessível para a época por sua qualidade e requinte, o termo “luxuoso” era sinônimo de algo durável com marcas e histórias.
Hoje o conceito de luxo resgata também a relação de experiência, que vai muito além do produto. A experiência proporciona, constrói e envolve todo um significado para a pessoa que está vivendo uma história com aquela peça, como foi o caso de Rita Moreno. A importância de desmistificar o drama de repetir roupa parte daí, e ainda inspira criatividade na hora de aproveitar, reutilizar e customizar as mesmas peças que são versáteis para o dia-a-dia.
Pessoas não estão mais perdendo horas se arrumando, elas preferem muito mais otimizar e poupar o tempo sendo assertivas, acreditando que prezar pelo conforto é essencial. A exemplo da blogueira Catarina Gonçalves, do instagram ‘Cansei de ser rica’, que é jornalista e escreve uma coluna no portal Alô News sobre as tendências em alta no mundo da moda e beleza. Com a correria da semana, a jornalista não abre mão de repetir roupas nessas horas.
“Roupa não é descartável e eu também não tenho um guarda-roupa infinito, né? Então a gente vai dando um jeitinho de mudar os acessórios, o sapato, uma amarração diferente. Sempre dá pra misturar e brincar com as peças dando aquela cara nova no look. Acho muito errado pensar que uma roupa que você comprou há cerca de 10 anos já esteja fora de moda, eu acredito que é a pessoa que dá a cara nova para aquela peça.”, comenta Catarina.
Em um meio onde os influenciadores digitais e os ditadores de tendência se vestem como se fossem vitrines, com looks novos da última moda a cada postagem, as redes sociais estão sendo usadas cada vez mais para influenciar comportamentos de consumo. O Instagram, por exemplo, é o meio que a jornalista Ingrid Seemann, especializada em moda, encontrou para se dedicar à consultoria de imagem, além de compartilhar conteúdo com dicas de moda e de consumo consciente para os seus seguidores.
“As dicas que eu sempre dou para as pessoas que me procuram e acompanham as minhas postagens é para que saibam utilizar tudo o que eles já tem no próprio guarda-roupa, é ter a consciência de que com três peças você pode fazer milhões de outras produções. Uma calça preta não é só uma calça preta sem graça, com ela você pode fazer mais de 40 combinações. Repetir roupa é tendência sim, mostra que você é uma pessoa criativa e com visão responsável para o consumo. É preciso olhar com mais responsabilidade o que a gente já tem em casa.”, conta a jornalista.
A ideia é simples: ter poucas peças - mas que vestem super bem - fará com que o seu desejo impulsivo de comprar roupa nova toda semana seja bem menor. O caminho para um consumo consciente no âmbito da moda é concentrar sempre o essencial, reconhecendo a real necessidade do momento. E nesse ritmo, as tendências vão abrindo muito mais espaço para o que é atemporal.

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