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22 de fevereiro de 2019

Mãos da História

A arte fascinante das mulheres da renda, dos bordados e do artesanato que enriquece não só a cultura sergipana, como também se tornou uma vitrine da história brasileira para o mundo.



A criatividade é movida pela sensibilidade da alma. Quem é criativo tem a habilidade especial de enxergar o mundo de um jeito diferente. E, para mulheres como Maria José, Izabel Góis e Maria da Conceição, que estimam cada toque, cada textura, cada traço minuciosamente explorado na costura, a criatividade se tornou o combustível de transformação de suas vidas, que resgata a autonomia ancestral do empreendedorismo feminino, conquistado em uma era pré-capitalista, e o prazer de viver.

Essa arte é um dom, fruto de traços característicos e de elementos típicos da cultura local. É através das técnicas passadas de outras gerações que essas mulheres se capacitam a desenvolver novos processos produtivos. Na trajetória delas, a arte feita pelas suas próprias mãos é um referencial rico de suas tradições, e cada história exerce uma influência singular em seu estilo de vida, o qual gera também um impacto significativo na economia brasileira.

Diante do papel econômico e cultural que o artesanato desempenha em Sergipe, a antropóloga e docente do Programa de Pós-Graduação em Culturas Populares da UFS, Rosana Eduardo da Silva, afirma que o artesanato constitui-se como importante mecanismo de empreendedorismo, inclusão social, sociabilidade e melhoria da autoestima de diversas mulheres. 

“Isso porque, por meio de um saber-fazer, muitas artesãs transformam a sua realidade utilizando-se de habilidades manuais como mecanismo de empregabilidade e manutenção econômica. Neste sentido, os ofícios tradicionais passaram a constituir-se como importante fonte de visibilidade, protagonismo e geração de renda feminina”, reitera Rosana Eduardo.

Hoje, com o crescimento da economia criativa nos últimos 20 anos, já é possível estimar que, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 10 milhões de brasileiros vivem e sobrevivem do artesanato. Os números impressionam, e são um retrato da atividade econômica que já se faz presente em 78,6% dos municípios brasileiros e movimenta mais de R$50 bilhões por ano com a sua comercialização.

No coração de Aracaju, o Museu do Artesanato, localizado no Centro de Turismo e Arte na Praça Olímpio Campos, abriga um acervo repleto de referências históricas e culturais. Na exposição é possível encontrar peças marcantes da região como a renda irlandesa e instrumentos como o bilro, além de diferentes tipos de artefatos. 

O prédio, tombado pelo patrimônio histórico do Estado, ainda conta com um espaço no Centro de Comercialização, onde reúne lojas de artesãs sergipanas como a de Maria José na sala 2 e a de Izabel Góis na sala 7. É lá que elas desempenham cotidianamente as suas atividades laborais, com suas criações e peças bordadas a partir do rendendê, ponto de cruz e rechilieu, e ainda se dividem entre o prazer de trabalhar costurando dia e noite, lutando pela sobrevivência nesse mercado para gerar o sustento da casa e, além de tudo, tendo que conciliar com as atividades domésticas.

Realidade essa que se contrapõe na vida de Maria da Conceição. Conhecida por ser buraqueira com muito orgulho por ter nascido na cidade de Porto da Folha, Maria começou a fazer ponto de cruz e rechilieu ainda muito nova por influência da matriarca da família, sua avó, mas abandonou a técnica para trabalhar como professora. Embora nunca tenha se interessado em vender suas peças, foi no auge de sua da vida que a senhora aprendeu e descobriu na renda de bilro a sua maior fonte de diversão.

No entanto, a população sergipana ainda segue inerte diante da riqueza de sua cultura. A arte que corre nas veias do nosso estado vem lutando dia após dia para sobreviver em meio às crises, desigualdades sociais e econômicas, assim como a pobreza, a falta de serviços básicos e a exclusão social que se fazem presentes nessa realidade. E esse é apenas um pequeno recorte do cenário em que as mãos embora esquecidas, precisam ser lembradas.

“As artesãs possuem significativa importância para Sergipe, uma vez que são mantenedoras de tradições que evidenciam traços culturais, elementos estéticos, simbólicos, sociais e étnicos. São patrimônios vivos que dão continuidade a um legado cultural que precisa ser valorizado, reconhecido e divulgado, inclusive para garantir a sustentabilidade financeira de suas produtoras”, conclui a antropóloga Rosana Eduardo, que ainda considera esse um segmento social economicamente vulnerável.

À frente das bagagens particulares que embarcam na história de Isabel, das duas Marias e de tantos outros artesãos e artesãs, o que os têm unido em lamento é a carência da divulgação de seus trabalhos. Para as três senhoras, esse fator é essencial para garantir que a cultura da renda, do bordado e do artesanato não morra. Para que através deles o estado continue possuindo um símbolo de identificação, podendo ser valorizado tanto pelos turistas quanto pela população local.


MARIA José
64 anos, Nossa Senhora das Dores (SE)


Mais conhecida como Lela, a ganhadora do Prêmio Mulher de Negócios do Sebrae de 2015 já participou de várias feiras no Brasil e na Argentina por causa do amor que sente pelo seu trabalho. O crochê e os bordados com rendendê, ponto de cruz e rechilieu estampam a sua loja na sala 2, e foi especialmente no rendendê que Lela encontrou a sua verdadeira paixão e motivação.


“É a nossa tradição, a maioria da minha família trabalha com o bordado. E até hoje eu também trabalho nesse ramo. Aos 8 anos eu comecei a bordar por influência da minha família, e isso já vem de outras gerações. Com essa idade eu estava aprendendo a bordar com a minha mãe e minha avó. 

Nesse tempo a minha mãe era costureira. Ela ainda não era bordadeira, mas aí com os filhos que foram muitos, graças à Deus, começou a fazer o rendendê e a trabalhar com isso. E foi justamente o rendendê que trouxe ela para Aracaju. Era ele que trazia o sustento para a nossa casa, e nessa época morávamos eu e meus 11 irmãos. Toda a vida foi assim, mas só quando ela veio pra cá foi que a vida melhorou.

Um pouco antes disso, eu casei e fui morar em São Paulo. Depois voltei e até hoje estou aqui. A minha mãe precisava de uma pessoa pra ficar na loja. Como a loja já vai fazer 40 anos aqui, eu vim pra ajudar a ela trabalhando e tomando conta. Eu amo trabalhar, amo fazer isso o dia todo se deixar. E inclusive também levo o trabalho pra casa todos os dias.

O que eu mais gosto de fazer é o rendendê. Faço crochê e ponto de cruz - este eu não gosto muito por causa das cores, mas nada se compara ao rendendê que é o trabalho típico de Sergipe. É a minha paixão. Ele é feito a partir de um tecido que se chama etamine. Com essa base eu vou contando todos os fios, faço o trabalho e depois corto, desfio e teço.

É um trabalho manual que é muito conhecido. Quando o turista chega aqui em Aracaju, eles querem conhecer o trabalho típico do estado. Infelizmente por falta de divulgação e incentivo nós estamos passando por dificuldades. Ele não tem o valor que era pra ter, justamente pela falta da divulgação.

O dia que eu ganhei o Prêmio Mulher de Negócios foi uma alegria muito grande em recebê-lo, porque tinha muita gente e eu que fui a selecionada pela minha história. Também me chamaram pra participar de uma revista e uma feira no Salão do Artesanato em São Paulo agora no final do ano. Parece que as pessoas lá fora reconhecem mais o nosso valor do que as daqui. Já rodei o Brasil e até fui parar na Argentina, pelo menos nesse ponto eu tive a oportunidade de divulgar e apresentar o meu bordado para outras pessoas, outra cultura.”



IZABEL Góis
75 anos, Aracaju (SE)




Com 38 anos no mercado, a espirituosa artesã se dedica à arte como quem respira. Em sua loja “Somente Arte”, na sala 7, o que não falta é criatividade. Na sua zona particular é possível encontrar desde peças de rendendê, ponto de cruz, rechilieu com rendas renascença, labirinto, crivo e souvenir, até objetos de centro de mesa reaproveitados e personalizados pela própria. Para Izabel, o que sustenta o seu ânimo de viver vem de sua maior terapia: a pintura.



“O que eu mais gosto de fazer é o bordado, depois vem a pintura. Também faço outros trabalhos manuais como bonequinhas. A gente quer deixar e não pode, é como uma cachaça, como um vício. Há vezes que eu quero deixar, mas daqui a pouco olha eu aqui de novo fazendo.

Eu sempre gostei de pintura, de trabalhos manuais. Fazia e vendia. Quando aqui foi inaugurado, me chamaram e aqui estou. Isso já fazem uns 38 anos. Eu trabalho o dia inteiro, tanto que a minha mesa é assim (cheia de coisa). Até fazia em casa também, mas agora estou só descansando.

Eu tinha uns 17 anos quando comecei a fazer, isso porque via muito a minha mãe, avó e avô fazendo. Nessa época eu ficava procurando onde vender, quem comprasse. A minha mãe tinha isso como um hobbie, ela gostava. E aí quando eu aprendi mesmo peguei o gosto também e fui me apaixonando cada vez mais.

É com esse trabalho que o Nordeste pode aparecer, se apresentar. Porque, olha não sei não, mas o Nordeste é muito forte nessa parte de costura, de artesanato. Eu ando por aí tudo, nas feiras e tal. Ele poderia ser mais valorizado. Antes a gente tinha mais ajuda, mais divulgação, mas agora não. 

O que nos salva é a Renda Irlandesa. Ela hoje é o nosso patrimônio cultural. Nem na Irlanda se fabrica mais, só a gente. Pra você ver, a gente cuidou da renda irlandesa, eles não cuidaram e perderam. E depois dela vem o rendendê e os outros bordados. Mas deveríamos ser mais divulgado. Por causa da falta de divulgação a gente está morrendo. É terrível. Nós nos unimos para que isso não morra, que apareça. Aqui dentro nós temos um condomínio, a gente fez, pra isso aqui não se acabar.

A gente faz tudo aqui. As vezes eu faço até boneca, porque aquelas buchinhas de antigamente são muito procuradas e ninguém quer fazer mais. Mas a gente faz. Porque também é a nossa cultura. Nós vivemos daqui. Sobrevivemos daqui.

E assim, são poucas aqui dentro que são artesãs, mas é atravessador. Tem lojas aqui que é uma boutique, elas não criam a peça. E eu gosto, porque é criando a peça que eu posso vender e falar com propriedade daquilo que criei. Mas aqui dentro está misturado o importado. Um dia apareceu um senhor turista que se revoltou, disse que isso tira o nosso incentivo e enquanto uma pessoa faz um trabalho desse, que é todo na mão, como vai competir com um importado? Que talvez seja mais caro que essa passadeira. É revoltante. Já houve muita vigilância, mas agora relaxaram.

Não criam, não fazem. Tem gente aqui que não enfia uma agulha. Tudo bem, ótimo, está sobrevivendo, mas vamos respeitar, né, quem faz, quem cria. E tira o incentivo de quem borda, porque não vou dizer que eu bordo isso tudo, não dou tempo, mas eu só tenho coisas feita na mão e de gente daqui de Aracaju, do interior. Eu não vou em uma loja comprar e botar aqui dentro, não, isso é falta de respeito com o seu vizinho e com o seu próximo. É falta de ética. 

Uma bordadeira que sobrevive disso, do interior, vai competir com uma peça que vem de fora? Não dá. Quer dizer, aquela coitada, como ela vai sobreviver? É terrível, mas nem tudo a gente pode dar jeito né.

Aqui tem duas garotas que levam jeito. Já vem pequenininha do interior, porque a gente mesmo já vem de pequena. As vezes herda do pai, da mãe, da vó. Elas vêm aqui nas férias desde o natal do ano passado, e a menina faz questão de aprender e eu ensino. Ela estava aprendendo fuxico, e aqui comigo ensinando uma bolsinha ela disse para avó: ‘Minha vó, eu preciso de tecido.’ Têm barato, de 3 a 4 reais o metro. Aí ela chegou no outro dia com uma sacola cheia de fuxicos prontos. Aí eu disse: ‘Ô, bonito o tecido. Você comprou?’, ela disse: ‘Não, a minha avó não quis comprar. Peguei o short e cortei todinho.’ Quer dizer, é um dom que já tem nela batendo de criar. Como ela não tinha, arranjou pra fazer. Cortou o short e fez uma bolsa. 

As mães, as avós, precisavam pegar os netos e ensinar. Tirar os telefones, os tablets, o computador das mãos deles. Esses pontos eu aprendi na escola. Essa mesma menina também quer aprender ponto de cruz e a boneca de garrafa. Ela viu que eu fiz e quer fazer também agora nas férias. E eu faço com todo prazer pra não morrer. Para isso não morrer. Porque se não vai acabar morrendo a nossa arte. E o nosso Brasil sem isso não tem história. Não tem pra contar, nem pra mostrar. E se não cuidar, como é que vai ser?”



MARIA da Conceição
81 anos, Porto da Folha (SE)


'Buraqueira legítima', Maria começou a confeccionar rendas ainda muito nova por influência da mãe e de outras mulheres da família. A professora já aposentada descobriu na renda de bilro um pretexto para divertir e ocupar a sua mente. 



“No início eu fazia muito ponto de cruz. Aí depois eu comecei a trabalhar e deixei o ponto de cruz. Logo em seguida comecei o rechilieu na máquina e por último, na idade, veio a renda porque as vistas não dá e aí eu continuo até o dia que eu não puder mais. No dia que eu puder faço, compro linha e dou às pessoas de presente.

Eu não tenho como vender por lá (Porto da Folha) e aqui também é difícil, que eu não venho aqui. Aí eu dou pra uma amiguinha uma peça, para outras amiguinhas e assim vai. Quando uma vem eu digo ‘traga o novelo’, porque é 13 reais, né, e dá pra fazer uma peça de 10 metros.

Essa minha habilidade vem de criança. Naquela época eu devia ter uns 9 anos, morava na casa da minha avó no interior e estudava lá. Minha avó dizia ‘vai fazer um negócio pra não sair na rua.’ Aí aprendi pra não ficar saindo e andando na rua o dia todo.

Ela ficava me ensinando e eu achava bonitinho. Na hora que eu não estava na escola aquilo me entretia. Aí vinham as amiguinhas e assim eu continuei. Nem tinha muito valor naquele tempo. Mas depois deixei, porque eu trabalhei como funcionária pública. Depois de maior eu fiz curso de professora, naquela época era muito difícil. Mas hoje eu sou professora aposentada.

Pra gente com a velhice fazer renda de bilro é mais fácil. Fica sentadinha e na hora que quiser descansar, descansa. Não é uma coisa obrigatória, eu não preciso disso (para sustento). Me ajuda muito, porque eu não posso sair. Faço minhas coisinhas por aqui, sentadinha, vou fazer a minha rendinha para o tempo passar. Aí uma pessoa gosta ou uma vizinha precisa e encomenda, eu dou com prazer.

Eu faço só pra me divertir, pra passar o tempo, pra distrair. Se não for a minha almofada, o que eu vou fazer? Vou me deitar, me sentir inútil. E lá eu moro sozinha, só dou um passo se alguém me segurar e ir comigo. Aí eu demoro, não faço o dia todo pra não me fardar, se não as minhas pernas e o meus pés começam a inchar por causa da diabetes. E enquanto eu puder vou fazendo.

Muita gente sobrevive e vive da renda, da aplicação. Tem esses bicos, uns mais estreitos e outros mais largos, que a gente faz com linha cinza. Dá pra aplicar em lençol, toalha de banho, de mesa. Só que isso aqui é uma coisa que pra mim não vale nada (financeiramente). 

Porque é uma coisa que ela só é bonita assim esticadinha, quando molha encriquia, embola. Pra passar é um Deus nos acuda. Muita gente não gosta de usar porque depois de lavada, se não deixar bem engomadinha, ela não é a mesma. É muito trabalhoso, hoje em dia ninguém quer comprar pra ter trabalho. Por isso que ela não vende muito assim não.”

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