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22 de fevereiro de 2019

Nosso chico não é lixo

A ressignificação da menstruação, e de seus respectivos ciclos, contempla alternativas reutilizáveis e ecológicas para mulheres que buscam conhecer sua natureza cíclica, repensando o seu consumo e suprimindo o tabu do mênstruo sujo e descartável.



O tabu em torno da menstruação não é nada novo. Ele sobreveio de forma banalizada por volta dos 1.445 anos antes de Cristo, quando a mulher em seu período menstrual era considerada impura aos olhos da sociedade. Já nesse tempo, conforme as concepções do judaísmo, a mulher menstruada era colocada em condição de imperfeição e não podia estar em contato com outras pessoas, sob o jugo de transmitir e contaminá-las com a impureza. De modo que era forçada a entrar em um intervalo de reclusão e impedida de sair de casa, a lei também a proibia de estar diante de Deus enquanto ainda tinha fluxo.

Sendo esse um pretexto de vergonha entre as mulheres da época, o sangue então encoberto era conferido como impuro e imundo. Hoje, com o uso dos absorventes descartáveis, esse cenário não é muito diferente. Continuamos tratando a nossa menstruação como lixo, como algo que não nos pertence - ou pelo menos não deveria pertencer. E daí vai se fundindo uma ditadura do sangue sujo, nojento e descartável, como sugere o próprio nome. 

Diante desse despotismo, a estudante de direito Luiza Allan Aragão, também influenciadora e consultora vegana do “Não como só alface”, descobriu a menstruação como parte importantíssima para seu autoconhecimento, pertencimento e feminilidade. Para ela, foi somente se livrando desses absorventes que se tornou capaz de abraçar tudo isso completamente. 

“Na época que eu utilizava absorventes descartáveis, zero saudades, tinha vergonha em mostrar o pacotinho no carrinho do supermercado ou até mesmo na escola a caminho do banheiro, além de nunca falar a palavra menstruação na frente de homens. Um bom tempo da minha vida não gostava de todo esse ciclo. Achava péssimo todo o transtorno, abafado, lixo, alergia, dinheiro, noturno, com aba, sem aba, diário.”, relembra Luiza.



Repense seu consumo

De acordo com um levantamento feito pela Fleurity, é possível sentir os impactos desastrosos que essa cultura do consumo descartável tem provocado no meio-ambiente. E principalmente por não serem biodegradáveis, esses absorventes demoram cerca de 100 anos para se decompor na natureza.

Essa decomposição tardia contribui para o aumento gradativo dos problemas causados pelo lixo mundial e de seus danos significativos, dilatando os entulhos dispostos nos lixões ou aterros sanitários e provocando a contaminação do solo com os aditivos químicos utilizados na sua fabricação.

A pesquisa apresenta que uma mulher com ciclo menstrual de quatro dias gasta, em média, 24 pacotes de absorventes em um ano. Em 40 anos (média da vida fértil da mulher) são usados 960 embalagens, o que equivale a quase 8 mil absorventes - são 192 quilos por mulher. 

Segundo o censo do IBGE, o Brasil conta com uma estimativa de quase 105 milhões de mulheres. Esse dado representa pouco mais da metade da população brasileira, somando um percentual de 51%. E se considerarmos que, apenas no nosso país, possam existir hoje cerca de 62 milhões de mulheres em idade menstrual, chegamos ao número alarmante de mais de 12.000 toneladas de absorventes jogados fora todo mês. Isso não é assustador?

Outro índice também preocupante é marcado pela quantidade de lixo do oceano da Ocean Conservancy, o qual contém aplicadores de tampão entre a sua lista de lixo encontrado no oceano. Não só eles levam anos para serem decompostos, como são muitas vezes ingeridos acidentalmente por animais marinhos e aves, causando danos irreparáveis ​​ao ecossistema oceânico já vulnerável.

Essa problemática começou a tomar forma com o processo de industrialização e pela concentração da população nas grandes cidades. O que até o século passado era disposto como combustível para o consumo sustentável, a sociedade moderna rompeu com os ciclos naturais da natureza desde que deixou de transformar o seu lixo em adubo para a agricultura.



Novo mundo sustentável

Na tentativa de pagar essa dívida com o meio-ambiente, novas alternativas ecológicas começaram a reaparecer. O qual surge na crescente conscientização ambiental que propõe resgatar os antigos costumes orgânicos de uma época pré-capitalista, quando os impactos ecossistêmicos desses itens higiênicos não chegavam nem perto de serem proporcionais aos dias de hoje.

Os absorventes de pano, por exemplo, são 100% feitos com tecido e se assemelham ao modelo convencional, com abas e botões que ficam presos na roupa íntima. Conhecido pelas vovós como “paninho”, ele funciona como um envelope impermeavel que absorve o fluxo menstrual, podendo ser lavado e reutilizado. Além de ter uma vida útil de 7 anos, demora, em média, apenas um ano para se decompor - podendo ser enterrado no jardim de casa.


Outra alternativa mais popular é o coletor menstrual. Apesar de existirem mulheres que não tiveram uma boa experiência e nem conseguiram se adaptar com o uso, o coletor pode ser muito prático para quem quer passar o dia despreocupada e é aconselhável especialmente para aquelas que têm sangramento excessivo e que, às vezes, chegam a usar até dois absorventes simultâneos para conter.

Feito 100% a partir do silicone medicinal, ele pode ser usado por até 12 horas sem vazamentos e sem necessidade de troca, proporcionando a sensação de estar sempre seca. O coletor dura cerca de 10 anos, sendo sugerida uma substituição a cada 3 anos a depender da marca, e o sangue coletado ainda pode ser utilizado como adubo para as plantas.


Essa opção sustentável é a que mais tem sido recomendada pela ginecologista Caroline Marques para suas pacientes. Embora ainda seja uma dificuldade convencê-las a se tocarem e a perceberem que não é feio colocar o coletor, a doutora oferece orientação e disponibiliza o consultório para a primeira inserção caso haja dificuldade.

“Acredito também que a mulher hoje não é mais aquela mulher que passava o dia em casa. Então precisamos ser mais práticas, porque a maioria sai pela manhã e só volta para casa a noite. Eu estimulo não só o uso de coletor, como também a amenorreia para as pacientes que querem ser donas do seu ciclo e menstruar quando e se quiserem. E elas têm esse direito. Você não precisa menstruar todo mês. A mulher atualmente é dona do seu corpo.”, reitera Caroline.

A mais revolucionária dessas opções talvez seja a calcinha absorvente que surgiu há pouco tempo no Brasil. A Pantys foi a primeira marca brasileira que idealizou esse conceito, desenvolvendo e lançando diferentes modelos com tecnologia de ponta, sendo muito bem posicionada pelas críticas. 

Além de ser uma peça vegana e reutilizável, a calcinha possui um tecido antimicrobiano com bloqueador de odores e alta absorção que promete proporcionar mais liberdade de conforto e movimento “naqueles dias”. Ela pode ser usada até 6 à 10 horas em fluxos intensos e o dia inteiro em fluxos mais leves, apresentando uma vida útil de até 2 anos.


Ambas são possibilidades acessíveis que podem facilmente substituir os absorventes comuns e ainda ajudam a economizar a longo prazo, poupando o bolso, o meio-ambiente e o nosso bem-estar. Os preços podem variar dentro de uma média de R$15 a R$20, de R$30 a R$80 e de R$75 a R$95, respectivamente.



Ame sua natureza cíclica

Mais do que adquirir um produto, é reintegrar a nova visão a partir de uma mudança de comportamento, anulando os velhos hábitos e costumes, para quebrar as barreiras e preconceitos que ainda perduram. E isso só irá partir de quem, incomodada com a cultura descartável, procura sua libertação.

Em comentário no blog da Pantys, Joana Figueiroa, usuária assídua da calcinha absorvente, enxerga esse agente transformador como fonte essencial para o empoderamento feminino. “Em casa também tenho usado absorventes de pano e, o que pode ser considerado um ‘voltar no tempo’, para mim tem significado liberdade, autoconhecimento e poder de escolha. Mas acredito que ainda há uma resistência naquelas que desconhecem esse ressignificar da menstruação: tenho a impressão de que apenas uma parcela das mulheres são tocadas pela questão (e pela calcinha revolucionária).”, escreve.

À frente dessa conscientização, um resistente movimento feminino tem se levantado para empoderar e ressignificar a menstruação. Uma vez que estamos diante de um ensinamento ancestral muito valioso, a própria definição da palavra “ciclo”, empregado para definir cada período menstrual, vem de sua origem primitiva no termo grego “kýklos”, que significa uma série de fenômenos cíclicos, ou melhor, uma série de fenômenos que se renovam de forma constante.

Diante dessa lição, a menstruação passa a ser visualizada como um processo de renovação e percebida como um fenômeno natural importante do nosso corpo. E a partir dessa mentalidade inteligente, se torna simples enxergar esse momento de forma muito mais amigável para contemplarmos juntas a beleza de ser mulher. 

A principal chave está em aprender a nos amar exatamente como somos, aceitando e valorizando nossos ciclos naturais, nos contemplando de forma muito mais profunda. É através desse exercício que, certamente, um novo mundo sustentável virá nos abraçar.

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